terça-feira, 28 de maio de 2013

A propósito de palhaços


Confesso que tinha abdicado de me pronunciar sobre a história do palhaço que alegadamente anda a passear no Palácio de Belém.
A tentação era enorme, mas calculei que o pessoal cá do burgo, com maior ou menor imaginação, desse boa conta do recado. E calculei bem, por isso fiquei descansado.
Estava já quase a conseguir controlar esta minha fixação/compulsão para atacar o alegado palhaço (e outros também alegados palhaços), quando me aparece o nosso querido e amado amiguinho gasparzinho, com a sua indignaçãozinha pequenininha(1) contra o jornalista que não lhe deu importância nenhuma e questionou um estrangeiro sobre o programa de ajustamento português.
Antes de continuar a falar da minha fixação/compulsão, venho aqui defender o jornalista, pela injustiça do ataque que lhe foi feito. É que o dito cujo (jornalista), ao contrário do que diz o gasparzinho, foi perfeitamente coerente ao questionar o presidente do eurogrupo.
 
Aliás, deselegante seria ele se tivesse questionado o nosso querido ministrozinho. É que a questão é simples e lógica. Quando queremos saber alguma coisa concreta, seja em que ambiente for e nos encontramos na presença do patrão e do empregado, a quem é que colocamos a questão? Pelos vistos todos nós sabemos a resposta, menos o gasparzinho. Neste ponto, confesso que o rapazinho (gaspar) é coerente com o que nos habituou. A falhar como falha as suas previsões, deve também pensar que as pessoas o vão respeitar, mesmo sabendo que ele não é mais do que a voz do dono (neste caso, da dona que, por sinal, é estrangeira).
 
E para cúmulo da deselegância, não é que o malandro do jornalista, ao questionar o estrangeiro em português em solo português, fez gato sapato das recomendações dos assessores do gaspar, que queriam que as perguntas fossem feitas em inglês.
 
Ora ou eu estou totalmente baralhado com esta minha fixação/compulsão e não penso coisa com coisa, ou estamos perante outra “gasparice” (que outros no meu lugar podiam chamar palhaçada). Não é que o sr. ministro achou deselegante o jornalista questionar um estrangeiro sobre assuntos nacionais em Portugal, na presença dum governante português e, ao mesmo tempo, quis obrigar os jornalistas a fazer perguntas em inglês, em território português a um estrangeiro, na presença desse mesmo governante português. Digam lá se isto não é uma grande palhaçada.
Voltando à minha fixação/compulsão, juro que estava quase controlada, quando me apareceu esta “ave rara” a expor monocordicamente a sua indignação (3).
 
Inexoravelmente, como em todas as fixações/compulsões, rodopiaram na minha mente as imagens (governamentais, não governamentais e outras que tais), de outros também alegados distintos membros dessa classe profissional circense:
  • O alegado palhaço lá dos lados de Belém, naturalmente, em lugar de destaque (2).
  • O rapazinho com ar de virgem ofendida, agora a braços com a greve dos professores.
  • O paulinho das feiras que não ultrapassa linhas vermelhas (diz ele), com um passado recheado de palhaçadas submarinas.
  • O opositor “seguro”, que acumula a função circense com a sua vocação seminarista.
  • Aquela central dita sindical que, sob a batuta “proencista” e a par com o opositor “seguro”, andou estes últimos tempos a fazer de “palhaça” de serviço do nosso querido primeiro Coelho.
  • A caridosa “tiazinha” que ultimamente anda caladinha, que se zangava connosco por querermos comer bifes todos os dias.
  • O Nandinho, com o seu nome muito nórdico, que nos manda aguentar, aguentar…
  • O reformado indignado e recheado e presidente daquela associação também reformada e indignada (e recheada?), que desapareceu depois de algumas vaias.
  • O empresário de sucesso com as suas opiniões (“palhaçadas”?) que, num acto de heroísmo patriótico, mudou a sua sede para a Holanda.
  • Uma parte (sem ironia, não digo a maior parte) daquele grupo de duzentos e cinquenta que anda ali para os lados de São Bento.
  • Uma parte (aqui sim, digo a maior parte) dos comentadores políticos, naturalmente inocentes nesta “palhaçada” toda, que agora aparecem cheios de soluções para o País.
  • Aquela associação que “defende” os consumidores com uns leilões giros em que cobra (alegadamente) comissões de milhões.
  • Os nossos queridos parceiros da União Europeia, que também nos “ajudam” com as comissõezinhas da praxe.
E podia continuar mais umas boas linhas, mas para desabafo chega.
Chega de falar de palhaços e palhaçadas. Como se diz e muito bem, chamar palhaços a esta gente, é ofender os palhaços (os genuínos). E não é apenas por se tratar de uma profissão nobre, cujo principal e também nobre objectivo, é fazer-nos rir.
É também, acima de tudo, porque esta gente e as suas alegadas “palhaçadas”, não têm graça nenhuma. Nenhuma mesmo, antes pelo contrário.
Aviso, prevenindo desde já episódios futuros, que a minha fixação/compulsão não está curada.
 
Nem pouco mais nem menos. Mas desculpem lá, precisava de desabafar…
 
Notas:
 
(1) a propósito da palavra pequenininha fui ao dicionário e tirei o significado de pequeno. Entre outros aparece o seguinte:
- Pequeno (Fig.): sem valor; Espírito pequeno, pessoa de ideias estreitas, etc.
(2) Desculpem mas não resisto sem falar do “alegado” palhaço-mor de Belém. Porque é que a PGR não abre um inquérito ao cidadão Cavaco, cada vez que ele insulta a função presidencial com as suas “palhaçadas”?
(3) Alguém que diga ao monocórdico Sr. Ministro Gaspar que, quando se indignar, tem de fazer um ar e um tom diferente daquele que usa para as habituais leituras dos powerpoints. É que aquele tom só pode mesmo agradar aos seus queridos e patéticos patrões alemães.

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