Infelizmente, este Parlamento não me desiludiu, da mesma
forma como nunca me iludiu.
Mas não pensem que culpo este conjunto de Deputados,
por agir de modo próprio e não representar o País.
Mais uma vez, infelizmente,
acho que este Parlamento é bem a imagem do País que ajudamos a manter. Não
culpemos, por isso, os Deputados e outros que elegemos. Culpemo-nos a Nós que,
no dia-a-dia, somos semelhantes a eles.
Afinal de contas,
assim como no Parlamento (penso que as proporções estão corretas e oscilam
dependendo das circunstâncias e do que se debate no momento), na nossa vida
comum, todos os dias presenciamos atos de xenofobia, racismo e homofobia, cujo
balanço de opiniões (seja a favor, contra ou “nim”) é semelhante ao que se viveu
ontem no Parlamento.
Não fechemos, por isso, os olhos e acusemos os Deputados de todos os males do País. Acusemo-nos a nós Povo que, por atos ou omissões, continuamos a ter e a participar, todos os dias, em pequenos Parlamentos à nossa volta.
É nestes momentos, nos momentos da derrota, que devemos pensar que o problema não está nos outros, que não são os outros os culpados. Não são aqueles deputados, que votaram contra ou se abstiveram, os culpados. Somos nós, no dia-a-dia, que agimos e atuamos cheios de preconceitos e falsos pudores esquecendo (propositadamente ou não) o sofrimento alheio.
Somos nós, no dia-a-dia, que ironizamos e achamos piada às
anedotas e aos comentários xenófobos, racistas e homofóbicos.
Somos nós, no dia-a-dia, que na refrega de alguma discordância ou discussão, utilizamos o palavreado xenófobo, racista e homofóbico.
Somos nós Exmos concidadãos, que fechamos os olhos ao que se
passa no nosso prédio, no nosso bairro, na nossa cidade, no nosso País, no
nosso Mundo. Somos nós os culpados.
Este resultado e outros deste género, não são nem mais nem menos que a nossa imagem, convençamo-nos disso.
Não vale a pena insultarmos os Deputados e outros agentes
políticos, somos nós que ali estamos, quer queiramos quer não.
Como tudo na vida, quando queremos mudar alguma coisa, a
primeira coisa a fazer é assumirmos as nossas culpas, a nossa conivência, a
nossa cumplicidade.
Mudar alguma coisa, Caríssimos e Exmos Concidadãos é, em
primeiro lugar, deixar de culpar os nossos representantes, por nos
representarem tal e qual como somos.
Mudar alguma coisa, Caríssimos e Exmos Concidadãos, é acima
de tudo, mudarmo-nos a nós próprios e aos nossos preconceitos e falsos pudores.
Até lá Caríssimos e Exmos Concidadãos, lembremo-nos que outros, iguais a nós, sofrem por causa dos nossos atos,
ou não atos.
Para terminar, as últimas palavras que aqui pretendo escrever, não são de repúdio nem sequer de incentivo a outras batalhas.
As últimas
palavras que quero aqui escrever são apenas de Tristeza, por todos Nós e por
mim também.
Porque, também eu, sou culpado.



