Ontem cumpriu-se mais uma etapa desta nova panaceia que
algumas mentes luminosas resolveram implementar no quarto ano… um exame
nacional? Não. Melhor ainda. Um exame nacional que não podia ter nas salas professores
que comprometessem os seus resultados, obrigando a que muitos alunos tivessem
de deslocar-se a outras escolas.
De acordo com o que veio a lume na comunicação social, os
exames estão a ser um sucesso organizativo e aparecem os alunos na televisão a
dizer que não acharam difícil e alguns até acharam giro irem a outra escola.
Até aquele ser iluminado que dá pelo nome de crato, com um ar de
condescendência clerical, veio falar com satisfação do ar tranquilo dos
alunos.
Maravilha!!! estão resolvidos os problemas da educação neste
país!!!
Sim, porque estes problemas devem-se essencialmente à leveza
com que os alunos têm encarado a falta de exames. Principalmente a falta de exames
nacionais no quarto ano tem implicado uma completa anarquia e
irresponsabilidade que acaba agora.
Acrescentamos a isto o facilitismo e irresponsabilidade dos
professores do 1º ciclo do ensino básico, que não se preocupam em ensinar ou
fazer evoluir os alunos e que, se assistissem aos exames, iriam fazer tudo para
falsear os seus resultados
Para piorar ,temos o facto de os pais não ensinarem aos filhos
(com umas boas palmadas se for preciso) o que é a disciplina e o temor à
autoridade e, já agora, não os obrigarem a ir à catequese e à missa todos os
domingos. Para além de que fazem muita falta as belas reguadazinhas dadas pelos
professores, que tanto bem faziam às criancinhas.
Melhor ainda que o exame do quarto ano, o que
devia acontecer era um exame destes desde o primeiro ano e, porque não, um
exame de admissão à primária? Sim, porque nós sabemos o perigo que as creches,
infantários e outros que tais representam para o futuro das crianças. Por isso,
o melhor mesmo era discipliná-los logo à entrada na Escola.
Que maravilha seria este país se isso acontecesse.
Os alunos voltavam a saber a tabuada de cor, voltavam a
saber quais os rios e os caminhos de ferro e ainda iam saber os
verbos de cor e salteado. Só os produtos é que não, porque já não se produz
muito. Mas podíamos substituir isso pelos produtos que importamos. Era giro,
sabermos quais as maiores importações no Algarve, no Norte, etc.
Mais ainda, os alunos voltavam a levantar-se sempre que
entrava alguém na sala, voltavam a saber o Hino nacional de cor, etc., etc.,
etc.,….
Obrigado crato e companhia. Ao fim de 39 anos de desvario
democrático, começamos a ver a luz ao fundo do túnel…
Sim, porque quando chegarmos ao fundo do túnel, eu sei que
lá estará o belo tempo da escolaridade mínima na quarta classe, os “bifes” a
concluírem o liceu (e destes, os eleitos a irem para a universidade) e as
“costeletas” a concluírem a escola comercial e industrial e arranjarem um
emprego honesto e digno nas empresas dos pais de alguns dos “bifes”.
Claro que a minha “democraticite aguda”, contraída
precisamente por ter frequentado o sistema de ensino durante estes anos de
desvario, leva-me a olhar para esta(s) aberração(ões) que nos governa(m) e
sentir uma sensação profunda de nojo, com a respectiva compulsão para o vómito.
É que eu (ao contrário do que tenho vindo a ler e a ouvir) acho que os meus tempos de primária (dentro da sala de aula, claro) foram um
nojo absoluto. Desde o decorar pelo decorar (fosse a tabuada, o abcedário ou a
gramática, os rios e as montanhas, etc., etc.) às reguadas pelos erros (às vezes com a
chamada “menina de cinco olhos”) e aos castigos de ficar virado
para a parede em pé, em alguns casos com as famigeradas orelhas de burro. Quem
não se lembra das filas dos alunos à frente do(a) professor(a), depois do
ditado, para apanharem as reguadas correspondentes aos erros?
Deixem-me fazer uma salvaguarda relativamente aos
professores primários da época, que sei que deram o seu melhor tendo em conta as
condicionantes e directivas de que dispunham. O nojo que sinto é relativo à
mentalidade, cultura e metodologias em vigor nessa altura e que agora,
perigosamente, aparecem algumas mentes a quererem defender.
Também me lembro do meu exame da quarta classe. Convém dizer
que nesse tempo os exames da quarta classe representavam o fim da escolaridade
obrigatória e, penso que por este facto, tinham uma razão de ser. Convém também
dizer que os professores facilitavam a vida (e bem) a quem não ia continuar a
estudar.
Também me lembro dos conceitos de educação e da forma como
se agia com a as crianças.
Só que, quero lembrar a este verdadeiro gang craticista que
os tempos mudaram, as crianças e jovens foram educados (e bem) de forma
diferente e que o ensino e as suas metodologias
evoluiram muito (e bem).
E é este "desvario educativo" (segundo crato e companhia) dos últimos 39 anos que eu venho agora defender, ao mesmo
tempo que faço questão de repudiar vivamente esta espécie de saudosismo bacoco,
que seria simplesmente ridículo se não existisse aqui um padrão
ideológico que poderá vir a afectar as actuais e novas gerações.
Posto isto, o que defendo para as actuais e futuras gerações
de crianças e jovens em geral, é a continuação das tendências educativas postas
em prática nos últimos anos 39 anos:
- paciência e compreensão onde esta gente defende punição
- inclusão e integração onde esta gente defende selecção
- raciocínio onde esta gente defende decoranço
E poderia continuar…
O que defendo é o repúdio completo destas e doutras medidas que
este governo e este ministro vêm pondo em prática e que não são mais do que o consubstanciar
das suas opções ideológicas, eivadas do mais puro e bafiento saudosismo retrógrado.
O que defendo é o repúdio por qualquer espécie de retorno
à minha famigerada quarta classe. E, para ser consequente com esse repúdio,
naturalmente que quero a demissão dessa aberração
que dá pelo nome de crato.
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