Mais uma carta. Mas que raio se passa com estes políticos que agora só sabem escrever cartas.
São cartas do Seguro para todo o lado, são cartas do Passos
Coelho ao Seguro, são cartas de…. sei lá mais quantas cartas andarão por aí.
Agora aparece esta “carta-aberta a A.J. Seguro” onde
alegadamente “ mais de 50, entre eles os "costistas" João Tiago
Silveira, Ana Catarina Mendes, Fernando Rocha Andrade e Duarte Cordeiro, a
quererem que o próximo líder socialista seja escolhido em eleições diretas
abertas a não militantes.”
Temos então que um “grupo de destacados socialistas próximos
de António Costa, insatisfeito com o rumo das coisas no partido, decidiu
"fazer alguma coisa" para pôr travão à crescente falta de confiança
dos cidadãos nos partidos”.
Segundo a notícia, a carta estaria cheia de propostas
“arrojadas” que resultaram de “dois meses a partir pedra” ou seja de intenso
trabalho. Ao ler mais em pormenor fiquei a saber que, de tanta pedra partirem,
estes destacados militantes chegaram a seis brilhantes propostas concretas que,
no essencial, após páginas e páginas de paleio, são as seguintes:
1) eleições primárias abertas a simpatizantes na eleição
para secretário-geral do PS;
2) possibilidade de referendos vinculativos para decidir
sobre as posições do partido;
3) inclusão de independentes/simpatizantes na Comissão
Nacional e na Comissão Política;
4) criação de um direito de petição para os militantes do PS
e cidadãos poderem apresentar propostas ao Congresso;
5) criação de um processo participativo aberto a todos os
cidadãos para apresentação e votação de propostas através da internet, com
vista à sua inclusão nos programas eleitorais do PS;
6) apresentação das medidas concretas dos programas
eleitorais acompanhadas de um calendário de execução e de uma estimativa de
impacto económico-financeiro e seu financiamento.
Confesso que ,após o meu enfado inicial (mais propriamente
enjoo) por ver a notícia de mais uma carta aberta, resolvi ler a notícia e
tentar saber que importantes medidas concretas saíram de tão brilhantes
cabeças. A minha curiosidade adensou-se quando li que os mentores e
subscritores desta carta eram destacados “costistas”. Olhando para os meus
botões e, tendo em conta as minhas vagas esperanças de que alguém ainda consiga
mandar o Exmo Seguro à vida e mudar nem que seja um pouquinho esta entediante e
inócua oposição, pensei que provavelmente estaria aqui uma forma de os apoiantes
de António Costa tentarem uma última cartada.
Mas, ao ler as seis propostas concretas (tive o cuidado de ler a carta na
integra em http://issuu.com/mais.participacao.melhor.ps/docs/carta_aberta, e a
notícia faz um resumo, quanto a mim, correcto) ,
dei comigo a olhar outra vez para os meus botões e pensar no que levará
tanta gente a estar dois meses a olhar para o umbigo e vir, todo feliz e ufano,
escrever cartas e vangloriar-se sobre esse verdadeiro exercício narcisista?
Sinceramente, estiveram dois meses a "partir
pedra" para chegar a estas seis míseras propostas concretas? Aqui
ocorre-me o seguinte: ou andam a gozar com o pessoal, ou acham-nos a todos
tolos, ou andarão eles próprios lá muito perto.
Dois meses!!! se houvesse aqui alguma novidade, ou se
tivessem descoberto a roda, ainda daria de barato. Mas seis propostas numa
carta que não passa de um conjunto de clichés, em que se diz que se pretende
acabar com o divórcio entre a sociedade e os partidos? Podem chamar-me má língua,
mas um qualquer comentador mediano faria isso numa manhã.
Que aproximação poderá ter um partido à sociedade, que
soluções milagrosas poderá propor, quando vem clamar aplausos por ter juntado,
durante dois meses, cerca de cinquenta destacados militantes, para fazer um
trabalho que uma pessoa faria numa manhã? Se levássemos uma coisa destas para o
mundo real (para uma empresa, por exemplo), das duas uma, ou a empresa falia ou
estas cinquenta pessoas iam direitinhas para a rua.
Para além disto tudo, em que país ou galáxia vive esta gente
que, em tempos como os que correm, em que é urgente derrotar este tipo de
política e de governo, vêm dizer ao mundo que estiveram dois meses a ver como
vão alterar os estatutos do seu querido e amado PS? Que urgência em debater
precisamente neste próximo Congresso questões que só terão efeito, a crer nos
subscritores, a partir das próximas eleições legislativas? Isto porque, se o
actual secretário-geral é o candidato do P.S. a próximo primeiro ministro (como
dizem), só depois destas, a mudança de estatutos terá efeitos práticos.
Não me alongando mais sobre as razões e os autores de tão
diligente trabalho, o que pensaremos nós de alguém que quer colocar como
questão principal dum congresso os estatutos de um partido, quando o País se
encontra na situação que todos conhecemos?
Assim como Passos Coelho fica todo contente com as cartas de
Seguro à Europa, que são uma óptima propaganda ao serviço do governo, Seguro
também deve estar todo feliz porque o próximo congresso em vez de debater a sua
liderança ou a sua estratégia política, vai estar ocupado como seu “umbigo”
partidário.
No fim disto tudo, ocorrem-me várias coisas:
- Quando o país precisa de alternativas reais e concretas a
este governo, aparece-nos uma mão cheia de militantes destacados do principal
partido da oposição, a olharem para o “umbigo” como forma de abrir o seu
partido à sociedade.
- Quando critico A.J. Seguro pela posição incipiente e
inócua que faz ao Gpverno, aparece-nos uma aparente oposição a Seguro, também a
actuar de forma inócua e incipiente;
- Quando, apesar de tudo, esperamos que o próximo congresso
do PS possa trazer alguma perspectiva de
debate sobre estratégias concretas para o País, começamos a ter a sensação de
que o que se vai discutir lá são uma
série de "balelas" partidárias, sem nexo nos tempos que correm.
Continua a ser para mim um mistério o motivo pelo qual
António Costa não avançou para a liderança do partido. No entanto, começo a ter
algumas luzes e nenhuma delas me agrada:
- Ou António Costa subscreve na integra este tipo de
estratégias e então estamos conversados. Por mim pode lá ficar o Seguro.
-Ou António Costa sabe que só pode contar com este tipo de
destacados “costistas” e, por isso, não avançou. Neste caso, eu faria o mesmo.
Uma coisa é certa. Com este governo, com este presidente,
com este p.s. e com esta oposição dentro do p.s., a sensação com que fico, com
o devido respeito, é a de que estamos entregues à “bicharada” (faço notar que a
falta de maiúsculas nesta frase é propositada).


