O homem está
mau. Deve ter dormido mal e acordou rabugento, ou então o almoço não lhe caiu
bem. Digo o almoço, porque com a rapidez com que ele toma decisões, a má
disposição do almoço só lhe aparece à hora do jantar.
Mas, alvíssaras
senhor, saiu uma decisão e não vamos menosprezar o facto. Só que “não há bela
sem senão”. Para quem possa pensar que o homem se precipitou ou de repente
decidiu mudar de vida e deixou as choraminguices para começar a tomar posições,
desengane-se.
Então não vêm
que a moção de censura é justificada com a “situação de pré-ruptura social”. É
por isto que se nota que está aqui uma decisão muito, muito, muito ponderada. É
que, para os mais distraídos, o País já está numa situação de pré-ruptura
social há já algum (longo) tempo…
Sendo assim, por
aqui se pode inferir que o homem no melhor do seu estilo, vem ponderando esta
decisão já há alguns meses, para não dizer anos. Sim, porque justificar a moção
com a situação de pré-ruptura social, é o mesmo que ir apanhar o comboio das 3
da tarde, às 10 da noite. Então ninguém disse ao homem que o país já não está
numa situação de pré-ruptura social. Será que ninguém lhe disse que já estamos,
há algum (longo) tempo, em situação de verdadeira ruptura social?
Ou o homem tem
um mundo próprio e não ouve ninguém, ou está muito mal aconselhado, ou então a
sua “corte” também gravita naquele mundo próprio em que o povo é submisso e
para além de não ter o direito de “comer bifes todos os dias”, só tem é de “aguentar,
aguentar”.
É que nesse
mundo verdadeiramente feliz, em que o povo é simples e submisso e as pessoas “decentes” arranjam umas sopinhas e umas roupinhas para dar, esta nem seria uma situação
de pré-ruptura… ainda seria uma situação de pré-pré-ruptura e, nesse mundo, o
homem seria um perigoso revolucionário a avançar com uma moção de censura muito
à frente do tempo.
Só que,
infelizmente, a realidade não está para brincadeiras e com o maior partido da
oposição refém desta verdadeira capacidade e rapidez de decisão, proponho que
se arranje uma nova figura regimental na Assembleia em que, para além das
moções de censura aos governos, também se possam votar moções de censura às
oposições. É que a democracia vive das maiorias e das minorias, dos programas
dos governos e das alternativas das oposições e, por isso, não é só o governo que
merece ser censurado quando as coisas não correm bem. É também a oposição que
deve ser responsabilizada, quando não apresenta alternativas credíveis.
E, azar dos
azares, o que temos nós? Ter um governo que faz aquilo que todos nós sabemos e
uma oposição incipiente e bacoca, como a encabeçada por este homem “seguro”, é
mesmo o cúmulo dos azares.
É por isso que,
perante notícias como a que deu origem a este artigo, eu já não peço ao PSD que
tire o tapete ao Passos Coelho, nem ao PP que denuncie a coligação, nem ao
grande “magistrado de influência” que demita o Governo. Eu só desejava uma
coisa: que o PS tirasse o tapete ao homem da “moção de confiança justificada
pela situação de pré ruptura social”.

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