João Ferreira do Amaral defende a saída do euro. E
porque não? Porque não começar a pensar em verdadeiras alternativas para sair
deste buraco onde nos metemos.
A receita do memorando com as suas diversas revisões
em cima de revisões, com as inúmeras e quase diárias falhas nas previsões
efectuadas, as alternativas propostas no quadro do chamado “arco do poder”, em
que se fala muito de estabilidade e crescimento, mas ninguém parece seriamente
convencido de quais as medidas a tomar.
Pelos vistos, dentro deste quadro, temos duas
alternativas: ou continuamos neste ciclo vicioso da austeridade sobre a
austeridade, ou arranjamos uns paliativos e propomos umas hipotéticas medidas
de promoção do crescimento que, a terem algum resultado, nunca seria a curto
prazo, prolongando a agonia daqueles que já vivem numa situação de verdadeira
emergência.
Aquilo que João Ferreira do Amaral vem dizendo já há
muito tempo (devemos dar-lhe esse crédito), poderá vir ao encontro daquilo que
está expresso nos cânones de todos as
profissões, ou seja, quando não se consegue resolver um problema dentro de um determinado sistema, a solução
estará logicamente, em procurar soluções fora desse sistema. Dito de forma
muito simples, se o país não encontra soluções dentro do "status quo"
actual, a solução estará muito
certamente em projectar-se para fora dele e descobrir aí uma verdadeira
alternativa.
Talvez, como afirma João Ferreira do Amaral, o ponto
de partida para a solução esteja na saída faseada e controlada do euro,
minimizando o choque devido à quase completa dependência em que nos colocámos.
Talvez, como afirmam partidos como o PCP e Bloco de
Esquerda e muitas personalidades independentes, o ponto de partida esteja em
renegociar a dívida em todos os seus termos: prazos, juros e montantes, de
forma a permitir condições mais favoráveis para fazer face aos compromissos
internacionais e, ao mesmo tempo, permitir a folga necessária ao crescimento da
nossa economia, tanto interna como externamente.
O que me parece é que no actual estado de coisas, já
nem uma nem outra, separadamente, são a solução.
Sair do euro "per si"(mesmo
controladamente), mantendo o serviço da nossa dívida como está, para alem de
não nos dar folga nenhuma em termos financeiros, iria ainda trazer custos que
aumentariam a asfixia da nossa economia.
Renegociar com sucesso a dívida em todos os seus
termos, muito provavelmente traria a folga necessária para o relançar da
economia, mas a nossa dependência do euro, a nossa completa submissão aos
directórios da Alemanha e das outras grandes economias europeias, voltaria a
médio prazo a colocar-nos numa situação semelhante. Penso que é lícito pensar
que uma economia como a nossa, dificilmente se aguentará sem ter os seus
próprios e independentes mecanismos de defesa (incluindo a moeda própria e um banco central autónomo), face às variações dos mercados.
Claro que, em todas as situações e soluções há prós e
contras mas, pelo rumo seguido até agora, seja em Portugal seja nos países do
sul da Europa e na própria União Europeia, pensar diferente, talvez seja a
verdadeira solução.
Naturalmente, não sejamos "naïfs" em pensar
que o país pode seguir outros rumos que não os actuais, sem existir da parte do
Povo português uma verdadeira consciência de mudança e, ao mesmo tempo, um
olhar para todas as perspectivas sem qualquer preconceito e medo.
Sem preconceito, porque sendo estas soluções defendidas por partidos como o PCP e BE (que
no quadro parlamentar actual não chegam aos 20%) e por personalidades que não
se enquadram propriamente no chamado “arco do poder”, poderão muito bem ser
equacionadas, sem qualquer perigo de radicalismos extremistas. Ninguém, com
algum peso percentual, defende o “não pagamos”, por isso esse quadro está fora
de qualquer perspectiva.
Sem medo, porque mesmo que trilhemos por caminhos não
tradicionais, provavelmente não serão muito mais perigosos do que os actuais. E
estes, com a agravante,de que, certamente, um dia destes irão empurrar-nos
precisamente para as outras soluções, ou seja, para a renegociação da dívida e
para a saída do euro. Mas existe um ponto fundamental, que fará uma grande
diferença. Uma coisa é sairmos do euro e renegociarmos a dívida por vontade
própria, enquanto ainda nos resta algum (pouco) poder negocial e outra,
completamente diferente, é sermos forçados a isso, pura e simplesmente porque
as políticas actuais nos empurraram para esse buraco. Aí sim, a dor será
infinitamente maior. Aí sim, é que devemos ter verdadeiramente medo.
Soluções imaginativas, que alterem o actual paradigma
europeu da “austeridade pela austeridade” e que, ao mesmo tempo, permitam a
Portugal encarar o futuro com esperança e alguma segurança, devem ser
urgentemente trazidas para um quadro de discussão alargada, que envolva a
própria "sociedade civil" (visto que o quadro partidário na sua
maioria se encontra actualmente preso a soluções já reconhecidamente vistas
como completamente descontroladas e, pior, que nos conduzem, inexoravelmente, a
um buraco cada vez mais fundo).
É necessário o envolvimento da "sociedade
civil" na procura, exigência e promoção de soluções fora dos actuais
paradigmas institucionais, tendo em conta que o actual sistema partidário tem
sido completamente ineficaz na procura de alternativas verdadeiras e credíveis.
Neste quadro partidário, em que uma ampla maioria
defende as soluções previstas no memorando (com as já referidas revisões sobre
revisões) não podemos esperar qualquer solução verdadeiramente credível, senão
vejamos:
·
A actual maioria parlamentar encontra-se
completa e definitivamente colada aos falhanços constantes das previsões desta
tendência "mekeliano-gasparista" e, a não ser por um qualquer golpe
de mágica, daqui não poderá sair sem excluir do seu seio os actuais lideres e
protagonistas deste descalabro governativo.
·
O Partido Socialista, com esta tendência
encabeçada por António Seguro, propõe tímidas renegociações (um pouco à imagem
das que, de forma encapotada, o governo tem vindo a fazer) mas, no essencial,
mantém a coluna vertebral assinada no memorando. Para além disso, em termos de
políticas de crescimento, as propostas que vem apresentando são em grande
medida ideias gerais, sem uma grande explicação concreta e credível para a sua
implementação. Por isto também se constata o desnorte do maior partido da
oposição.
Perante este panorama institucional, a solução terá
de vir, friso, da pressão da sociedade civil, seja para a mudança radical da
política seguida por este governo (que eu não acredito que aconteça) seja, em
alternativa, na exigência da sua demissão com a convocação imediata de novas
eleições.
Claro que levar o governo à demissão e depois voltar
a colocar lá partidos que continuem a defender o mesmo tipo de soluções, quanto
a mim é um desperdício de energia a que não nos podemos dar ao luxo.
O que a sociedade civil tem de fazer, é mostrar aos
partidos que têm obrigatoriamente de apresentar programas com verdadeiras
alternativas e soluções, castigando aqueles que continuarem a reger-se pelas
sebentas que levaram ao memorando.
Seja o PSD, o PS, o CDS ou todos os outros partidos
fora deste “arco” deverão ter nos seus militantes e simpatizantes, forças de
influência que os obriguem a verdadeiras alternativas. Naturalmente, que deverá
estar implícito que o povo não tolerará mais "chico espertos" que
apresentam um programa e não têm qualquer pejo em rasgá-lo mal chegam ao poder.
Posto isto e, porque o artigo já vai longo, proponho
apenas que olhemos para todas as soluções e alternativas que, como esta de João
Ferreira do Amaral, poderão conduzir-nos a um novo caminho de esperança,
tirando-nos deste buraco em que, inconscientemente (ou não), nos metemos.

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