A Igreja ortodoxa põe espólio à disposição do Governo para
salvar Chipre… se esta for uma oferta verdadeiramente desinteressada, considero
que é um dos gestos mais bonitos que uma organização, religiosa ou não, poderia
ter…
Friso este ponto, se esta for uma oferta verdadeiramente
desinteressada. Vamos ser optimistas e acreditar na bondade desta proposta e
considerá-la como uma verdadeira oferta de ajuda.
Sendo este o caso, mesmo que os valores envolvidos não
cheguem nem de longe nem de perto para solucionar o problema, presto aqui a
minha mais sincera homenagem à Igreja Ortodoxa Cipriota e aos seus dirigentes.
Este gesto, talvez dos gestos mais surpreendentes a que tenho assistido, é sem
dúvida uma verdadeira lufada de ar fresco, que deverá trazer não só aos
cipriotas, mas a todos os povos do mundo, uma nova esperança e o desejo que
todas as religiões trilhem os mesmos
passos da Igreja Ortodoxa do Chipre.
Embora este gesto magnífico não faça de mim um crente (nem
nesta nem noutra qualquer religião ou entidade religiosa), tem no entanto o
condão de me fazer acreditar que as organizações religiosas e as respectivas
hierarquias podem, de facto (se não todas, pelo menos algumas e, neste caso,
certamente uma), estar genuinamente apostadas em colocar-se ao serviço dos
homens, cumprindo a missão a que se propuseram.
E, mesmo que aleguemos que todo o seu poder e dinheiro
adquirido ao longo dos tempos, possa ter por base actos menos dignos, este
magnífico gesto não pode nem deve ser menorizado ou denegrido.
Só espero que estando esta Igreja circunscrita ao território
cipriota, outras igrejas em outros cantos do mundo sigam o exemplo. Não
precisamos de ir muito longe (aliás podemos mesmo centrar-nos no nosso país) e
ver o impacto que um gesto destes poderia ter se não nos sacrifícios que o povo
português está a atravessar, pelo menos no seu sentimento de abandono e traição
relativamente a todos aqueles que se comprometeram em ajudá-lo.
Centrando-nos no nosso país, mesmo que os valores financeiros
atingidos por uma oferta deste nível não dessem para aliviar o sufoco que
atravessamos, pelo menos trariam a este povo (maioritariamente católico), a
sensação que não estavam sós ou abandonados à sua sorte.
Para além disto, neste tempo em que se elogia o aparecimento
de um novo Papa que tenta transmitir uma imagem de verdadeira humildade e
simplicidade, que melhor gesto poderia ele ter que o de seguir o exemplo da Igreja
Ortodoxa Cipriota. Podemos afirmar que o poder financeiro da Igreja iria ficar
abalado, mas tenho a certeza que, em contrapartida, esse gesto iria engrandecer
esta religião a um nível nunca visto.
Pelo menos aos meus
olhos (não crente convicto) este gesto da Igreja Cipriota e um possível gesto
semelhante da Igreja Católica, iriam sem dúvida ter o condão de elevar o meu
respeito pelas suas hierarquias, já que o meu respeito pelos crentes não está
em causa.
É costume dizer-se que é nas alturas de crise e sofrimento
que aparecem os verdadeiros heróis e se revela
também o melhor da Natureza Humana. Espero sinceramente que seja este o
caso e que, independentemente da minha não crença religiosa (que não se alterará),
o líder da Igreja Ortodoxa do Chipre, Arcebispo Chrysostomos II, o Papa
Francisco I e outros em outras religiões ou instituições religiosas, sejam
verdadeiros heróis do nosso tempo. E, (já agora sejamos ambiciosos) que estes
Herois contagiem, com este gesto, outro tipo de organizações (quem sabe políticas
e financeiras), para que finalmente toda a Humanidade consiga trilhar um rumo
que esteja de acordo com os seus tão apregoados ideais.
P.S. (não é o partido): coloco aqui um post-scriptum, para que não
seja anulado o sentido deste artigo. É que, também posso ser
pessimista e pensar que um gesto destes tem contrapartidas. Se as tiver, não
digo que devam ser rejeitadas à partida, mas sim que esta “oferta” seja tratada
e analisada da mesma forma que estão a ser analisadas as outras. Ou seja, que
esta “oferta” de ajuda seja analisada do mesmo modo que estão a ser analisadas
as propostas de “ajuda” dos russos e dos “merkelianos” europeus e que, após
essa análise, o governo e parlamento cipriotas tomem a atitude mais favorável
ao seu Povo. De qualquer forma, se for este o caso e se tratar apenas de um
gesto de “ajuda” igual aos outros, fica aqui apenas um ligeiro sentimento de
desilusão.

Sem comentários:
Enviar um comentário