quarta-feira, 5 de março de 2014

“Papa diz que ninguém fez mais que a Igreja na luta contra a pedofilia”. Será que conseguiria dizer isto à frente das crianças e das suas vidas destruídas?




“Papa diz que ninguém fez mais que a Igreja na luta contra a pedofilia”. Na hora da verdade o corporativismo triunfa sempre.
Tem sido assim, é assim e infelizmente acho que vai continuar a ser assim.

Ou seja, por mais atitudes e sorrisos simpáticos que o novo Papa assuma, por mais discursos em que amacia a posição da igreja em algumas questões, quando se trata de fazer uma verdadeira e consequente “limpeza”, tudo volta ao mesmo. Toca a cavar trincheiras e a defender o castelo, por mais indefensável que ele seja.

Por norma, não comento assuntos religiosos, a não ser que estes esbarrem em situações que ultrapassam as fronteiras do direito canónico. Este é um desses casos.

Será que a dimensão monstruosa que a pedofilia assumiu na igreja ao longo dos anos, não mereceria deste Papa (se na verdade fosse o reformista que se apregoa), uma atitude mais radical de condenação da própria igreja, seja dos padres que cometeram os abusos, seja do seu encobrimento por parte das hierarquias?

Infelizmente com esta entrevista, este Papa veio demonstrar agora aquilo que eu já pensava. Que por mais boa vontade, ou por mais genuíno que ele seja, será apenas mais uma espécie de Marcelo Caetano com a sua “primavera marcelista”, do que propriamente alguém que muda de facto o regime.

Tenho seguido com curiosidade e alguma atenção o seu percurso desde que foi eleito, mas infelizmente tudo aquilo que eu penso das instituições religiosas (sejam elas quais forem) continua a ser a regra e não a exceção.

Por isso, por mais plásticas que este novo Papa possa fazer e por mais boa vontade que ele possa ter, elas não passarão disso mesmo. Isto porque a poderosa máquina que se move por dentro das paredes do Vaticano, apenas lhe permitirá pequenas “ações de marketing” que até dão jeito para tentar manter as audiências.

Esta defesa veemente da Igreja por parte do Papa, quando apenas bastaria a humildade de fazer um simples “ato de contrição” e afirmar a vontade da Igreja em cooperar com todas as instituições judiciais para a resolução de todos os casos, exatamente como foi solicitado pelo relatório da ONU sobre a pedofilia, mostra apenas que a poderosa máquina conservadora do Vaticano ainda continua com a sua força, a exemplo da poderosa ala salazarista e conservadora, no tempo de Marcelo.

É que esta entrevista do Papa não foi a única reação. Ela vem na sequência da reação oficial da Igreja ao dito relatório que também mostrava as suas garras afiadas, em defesa do indefensável. 

Desculpem-me os religiosos, neste caso os católicos, mas ainda não será desta que alguma coisa substancial mudará no seio da vossa Igreja.

Utilizando uma dicotomia muito simplista, os bons continuarão a ser bons e os maus continuarão a ser maus e continuarão também a sentir-se protegidos por todo o corporativismo inerente a este género de instituições.

Mas pensem caros católicos, pensem nas crianças e nas suas vidas destruídas. Se pensarem nelas, talvez em vez de esperarem que este Papa seja um super-homem, se calhar poderão, nas vossas paróquias ou nos vossos canais de comunicação religiosos, fazer pressão para que os “marcelos caetanos” (caso queiram) possam vir a criar mais do que simples primaveras e que os criminosos sejam levados à justiça e, ao mesmo tempo, os potenciais novos criminosos não se sintam protegidos por mantos de silêncio, que são, no mínimo tão criminosos quanto eles.

Se não fizerem isto, não desanimem, talvez o próximo Papa seja esse super-homem.

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